19 de outubro de 2012

Huguinho, Zezinho e Luizinho


Três crianças - Huguinho, Zezinho e Luizinho - disputam entre si uma flauta.

Huguinho se arvora como o único que deve ficar com o instrumento porque somente ele sabe tocá-lo (questão, pois, incontroversa, uma vez que todos os outros com isso concordam) e aponta que seria injustiça tolher o único que seria capaz de encantar os outros com o som da flauta. Fosse só isso, seria simples.
Entretanto Zezinho também reivindica a flauta, mas sob o argumento de que, entre todos, é o mais pobre, o único que não tem e nunca teve nenhum brinquedo para se entreter. A flauta seria sua única distração (circunstância admitida pelos outros dois que reconhecem que são mais abastados e que suas casas estão forradas de atrativos). Ouvindo somente esse relato qualquer um, sensibilizado, se inclinaria a entregar-lhe o regalo.
Finalmente, Luizinho pondera que a flauta foi o resultado de seu trabalho, uma vez que, depois de muito pesquisar e de inúmeras tentativas frustradas até o êxito na produção da peça, durante meses talhou com esmero aquele instrumento, inconformando-se que só depois de tudo que passou para construí-la venham querer tomar o fruto de seu esforço. Tomando contato só com essa versão muito provável que se se decida com ele deixar a flauta.
O grande problema é que tomou-se contato com as razões das três crianças na mesma disputa. Assim, nessa aporia, quem deve ficar com a flauta?
Teóricos do utilitarismo considerariam que quem sabe tocar é que deveria ficar com a flauta, haja vista que o bem-estar do menino e de todos que se embeveceriam com a música deve prevalecer. Os igualitaristas econômicos, empunhando bandeiras para a redução do abismo social que separa os mais ricos e os mais pobres como em um M.S.F. - Movimento dos Sem Flauta, entregariam o instrumento a Zezinho. Por fim, os libertários, calcados na premissa de que não se pode tomar de alguém o fruto de seu trabalho, decidiriam que o apaniguado deveria ser Luizinho.
A historinha aqui contada, extraída do livro de Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia, titulado A ideia de justiça, além de apresentar com didatismo pontos fulcrais da filosofia política, ilustra a transversalidade da verdade. Para muitas coisas da vida, não existe certo ou errado. Existem pontos de vista. E só.
E se em um experimento sociológico forem indagados gente de "esquerda" e de "direita" sobre a criança que deve ficar com a flauta, confirmando o aqui dito e redito inúmeras vezes, muitos responderão em desacordo com a bandeira que, por conveniência, empunham, confirmação que, salvo exceções cada vez mais excepcionalíssimas, no fundo só existe a ideologia do cada um por si.

 Fonte: Moginews
Matéria publicada em 19/10/12 Tribuna Livre
Dirceu do Valle, advogado e professor de pós-graduação da PUC/SP

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